Pré-Socráticos: Escola de Eléia
XENÓFANES
1 - VIDA
Nasceu em Celofônio, na Ásia Menor. Data incerta; depois de Pitágoras, antes de Heráclito.
Dizem-no Fundador da Escola de Eléia. É a coisa mais duvidosa do mundo, até se esteve algum dia em Eléia.
Chamam-no teólogo. Ele mesmo, provavelmente, se teria rido disto, deste mais um equívoco da história. Viveu muito pelo menos uns 92 anos. Poeta foi. E percorria a Grécia recitando versos, sobretudo seus.
2 - OBRA
Escreveu poemas: hexêmetros e jâmbicos ( elegias e ´sátiras a que chamou de "sillos") contra Homero e Hesíodo.
"Nenhuma autoridade interna, por seu turno, terde a confirmar que ele tenha escrito tal poema (id. ib. pg. 131). Parece provável que alguns pensamentos filosóficos ou teológicos se tenham indicentemente misturado às suas críticas aos poetas. Nisso, nesta separação ou oposição entre filosofia e poesia ele foi ao menos um predecessor de uma luta que culmina na República de Platão.
3 - DOUTRINA
(?) O mais importante em Xenófanes é a crítica rigorosa de politeísmo popular, incentivado por Homero e Hesíodo.
a) Homero e Hesíodo, diz ele, atribuíram aos deuses todas as coisas, que entre os homens são opróbrio e vergonha: roubos, adultérios e trapaças recíprocas (Fragmento II - Diels).
b) Combate o "Antropomofismo": os mor tais imaginam os deuses gerados como eles, vestindo-se, falando e humanizados como eles (Frag. 14). Mas se os bois e os cavalos pudessem imaginar e fabricar deuses, os imaginariam e fabricariam como bois e cavalos (Frag. 15).
c) Monoteísmo. Em face dos deuses, Xenófanes fala num só Deus: "Um só Deus, o maior entre os deuses e os homens e que não tem parelha entre os homens nem pela forma nem ppelo pensamento" (Frag. 23). Ele inteiro, vê; inteiro, pensa; inteiro ouve (Frag, 24). "Sem esforço, governa todas as coisas pela força de seu espírito" (Frag. 25). Habita sempre no mesmo lugar, sem se mover em nada, nem lhe convém transportar-se de um lugar para outro (Frag. 26).
Há um sentido aparentemente claro aí:
I - Unidade de Deus;
II - Deus imóvel e tudo - "motus simul";
III - Deus poder, governo, espírito;
IV - Deus transcendência (?).
No entanto, terá sido o monoteísmo de Xeófanes o nosso monoteísmo? Um especialista, como Wilamowitz pretende exageradamente, que Xenófanes represente o "único verdadeiro monoteísmo que jamais tenha existido na terra". Outro especialista - Freudenthal - julga que o nosso "Teólogo" não está isento de algum politeísmo.
Para um grego daqueles tempos parece sem importância a unidade ou a pluralidade divina em comparação com a questão de saber se Deus existe e quais suas relações com o mundo (Eduardo Meyer).
Ora, segundo Aristóteles, Xenófanes identifica "deus" e o mundo. Textualmente, Xenófanes, o mais antigo dos partidários da Unidade... (Met. A. 5, 986b 21). Alex. 44, 10 - ap. Tricot; Aristote - Metaphysique I, tr. fr. Vrin, 1953 - pg, 49).
"Partidários da Unidade", mas sem penetrar a natureza da questão, Xenófanes alçando os olhos para o universo, se contentou com afirmar que o Uno (Universo, o todo) era Deus. (Arist. - Met. A, 5, 986b, 24). O peripatético o repele como um pensador grosso como Melissos (id): "Suas concepções são grosseiras".
Sem ser politeísta, nem monoteísta a nosso, Xenófanes é antes um poeta (velho), tisnado de um rude panteísmo. "Mas todas estas opiniões teriam talvez surpreendido ao próprio Xenófanes. - Ele era um "Welt-King" de Goethe, cercado de profetas à direita e à esquerda e teria sorrido se tivesse sabido que um dia alguém o chamaria "teólogo" (Burnet, Aurore, pg. 144). Enganos da História.
PARMÊNIDES DE ELÉIA
1 - Cidadão de Eléia, aí nascido, c. 540 a.C., interessou-se no governo de sua pátria, à qual deu um Constituição. Conta Plutarco que os magistrados da cidade faziam o povo jurar todos, que observariam as leis de Parmânides (Adv. Col. 1226 a-Ap, Burnet, tr. fr. Payot - Paris 1952 - pg. 198).
Homens práticos, estes filósofos, sobretudo políticos quase todos. E nem por isso "clérigos traidores".
2 - Terá sido discípulo de Xenófanes ou não. Mais provavelmente o terá "ouvido" sem o ter "seguido". Há quem afirme (sotion) ter sido antes discípulo do pitagórico Ameinias, "pobre mas nobre", a quem ergueu mais tarde um "herôon".
3 - Nota-se aqui e ali, na obra parmenida, resquícios de influências de Xenófanes (influências ou confidências, confluências?) e de lembranças dos Pitagóricos, a que aliás, rejeita, embora possa tê-los admitido na juventude.
4 - Escreveu um poema a que a tradição deu o nome de "peri Phiseos", como de costume a estes primeiros escritos filosóficos.
Foi o primeiro a escrever filosofia em verso. Imitou-o Empédocles, mas a moda não pegou...
Xenófanes também havia escrito em versos, mas Xenófanes como Epcharmo, não eram filósofos profissionais, por isso dissemos o primeiro.
Versos imaginosos, ardentes e solenes: coisas de Itália do Sul, sonhadora e forte.
5 - O poema parece ter-se dividido em três partes:
a) Uma introdução grandiosa;
b) A Via da Verdade;
c) A Via da Opinião.
"O maior dos filósofos pré-socráticos, o primeiro metafísico verdadeiramente tal, "o grande Parmênides", por quem tanta veneração sente Platão que o chama de "nosso Pai" (M.F. Sciacca - Hist. de la Fil., tr. esps. Luís Miracle Ed. - Barcelona - 1958 - pg. 56).
A seu modo, pitoresco, dramatizando, Dom Manuel Garcia Morente: (Cf, "Lecciones preliminares de filosofia" - Ed. Losada - Buenos Aires - 1952 - pg. 67);
Platão o chama ainda Venerável. Platão, tão parco de adjetivos e elogios para os seus predecessores (Julian Marias 0 Hist. de la Fil. - 1954 - pg, 19-20).
6 - Introdução: UMA ALEGORIA
Arrastado em um carro de eixos alados, tirado por uma parelha de éguas magníficas, guiado pelas filhas do Sol, que afastam os véus de seus rostos e deixam a morada na noite, caminha o poeta para o encontro com a deusa. Na bifurcação das estradas que levam ou para o ser ou para as aparências suas surigas o encaminham predestinadamente pela vereda da verdade, até que chegam diante da Porta do Céu, guardada por Diké. Pela intercessão das Helíades, pode entrar pelos umbrais solenes que se movem nos gonzos de bronze: o carro vai estacar diante da deusa que o recebe, carinhosa, diz-lhe da rara predestinação de que está gozando e lhe anuncia e lhe revela o coração incomovível da rotunda verdade" que ele aprende a distinguir das opiniões trepidantes dos mortais.
Importa-lhe, porém, conhecer tudo: o ser e as aparências. E a Deusa se póe a ensinar: ler o prólogo.
7 - Esta revelação, esta "visão" nos mostram Parmênides no momento mais alto de sua "criação". Recebe a verdade como de Deus. Ele, vê emocionado, essa coisa inédita, tão distante daquilo que pensam esses "insenssatos" mortais de duas cabeças.
"O ser é e não pode não ser. O não-ser não é e é necessário que não seja. Não pode sequer ser pensado ou expresso, pois pensar e ser são a mesma coisa" (Frag. 4, 1-6; 6).
8 - A polêmica de Parmênides que, à primeira vista, pode ser interpretada como dirigida a Hetáclito (para quem o ser é e não é), na verdade parece dar-se contra o comum dos mortais, a turba ignorante tão bem quanto os filósofos anteriores - milésios, etc - que todos pareciam laborar no mesmíssimo engano.
As coisas que os olhos vêem e os ouvidos ouvem vêm de um ser primogênio que é Uno, porque original, fontanal, princípio, fim de tudo, mas é múltiplo pois está derramado, dividido, multiplicado nas coisas.
O movimento e a multiplicidade, obras da geração e corrupção só podem ser uma opinicão destes pobres manés de duas cabeças, "homens surdos e mudos", "guiados por um pensamenteo vacilante", "aos olhos dos quais o ser e o não-ser lhes parecem o mesmo e não o mesmo e as coisas todas caminham em direções opostas" (Frag. 6, versos 4-9).
9 - Parmênides segue implacavelmente a lógica de sua inteligência. Os físicos falaram dosseres (ta onta) que a experiência nos apresenta ao mundo.
Havia sido a genial descoberta dos jônios afirmar a realidade dessas coisas e não apelar para o ignoto, o mítico, como origem dos seres.
Agora Parmênides resolve submeter à "crisis" essa pretensão dos "onta" de serem reais, de serem o ser.
Mas ele conclui que essas coisas receberam o nome de ser mas não o são (Frag. 8, verso 38).
O ser verdadeiro não admite nenhuma mistura de não ser: é completamente ou absolutamente não é (Frag. 8, 11).
a) PRINCÍPIO:
Ser e não-se o mesmo - isto é impensável. E o impensável é impossível. O impossível simplesmente não é (Frag. 6, 8-9); Frag. 4, 7-8).
b) NEGAÇÃO DO MÚLTIPLO:
Ora, o múltiplo e o mudável seriam ser e não-ser. Se se multiplica então se limita; e o ser que é limitado é incompleto (incompleto, não incompleto) é um ser misturado com negação de ser. Se esta folha de papel admitir uma outra folha de papel fora dela é que nela falta algo de papel, o papel todo não está nela, ela é, em certo sentido, não-papel. Um ser limitado seria também um não-ser, pois, algo do ser faltaria nele. Ora, um ser que é não-ser é impensável. Logo não é. O ser não pode ser múltiplo. Não há "onta", mas "to on".
c) NEGAÇÃO DO MOVIMENTO
Consequentemente, não pode o ser mudar e mover-se. Mover-se de onde? Para onde?
De ser uno para ser uno? Então não se move, não mudou. Mover-se do não-ser para o ser ou do ser para o nôa-ser? Mas o que é, é; não pode não-ser. Se um ser não contém em si nenhum não-ser, é indestrutível; é, portanto, irreal, a corrupção daquilo que não tem nenhum germe de morte que é só ser e existência. Não pode, pois, mover-se para o não-ser. Poderá mover-se do não-ser? Tão pouco.
"Não te deixarei dizer nem pensar, fala a deusa, que ele provenha do não-ser, pois não se pode dizer nem pensar (o ser) não seja".
Isso que hoje é, como não terá sido um dia? Então o ser um dia foi não-ser? E se ele um dia foi não-ser, "que necessidade o fez nascer antes ou depois?" Qual a razão suficiente para esse nascimento temporal? Uma coisa que aparecesse sem razão suficiente não seria pensável, não era (Frag. 8).
Por isso, mesmo, não há geração nem corrupção do ser, ele permanece sempre todo inteiro, imóvel e sem termo (Frag. 8, 2-4).
"Uno e contínuo, todo no mesmo tempo" de uma eternidade que é um imutável presente: o ser nunca foi e nem será, pois é agora, todo simultaneamente (Frag. 8, 5). Admirável intuição da eternidade literalmente, no que tem de essencial a de Boécio: "Tota simul et interminabilis vita".
d) NEGAÇÃO DO TEMPO
O ser - Doutrina de Parmênides - não pode ter passado ou futuro, pois isso seria mover-se no tempo, não ser o que foi não ser o que será. Isso é impensável e, pois, impossível quanto mover-se no espaço.
e) CONCLUSÃO
Não há, pois, coisas no plural (onta);só há um ser (on) palavra, aliás, cunhada por Parmênides, único, só, imóvel, eterno.
10 - É meio desengraçado, a esta altura, sentirmos, violentamente, o impacto pesado do testemunho dos sentidos que afirmam, com tanta ênfase e com tamanha evidência, a pluralidade, o movimento e a temporalidade dos seres.
Para o nosso filósofo, porém, isso não chega a ser um embaraço sério. Pois afinal a "via da verdade" é a do "logos". E se à inteligência o testemunho dos sentidos aparece como absurdo e contraditório, então é que os sentidos são testemunhas enganosas a que não se deve prestar uma atenção séria.
Não que o Ente parmenideo seja uma realidade purmente mental, sem contato com o mundo, sem correspondência com o real, como se poderia supor ao ler, superficialmente e com mentalidade de um idealista moderno, a famosa frase: "pensar e ser não é uma só e mesma coisa". O que o filósofo pretende dizer é que o não-ser é impensável e incognoscível; por isso, não é. Ao passo que o ser é pensável, por isso é real, "está presente aí no mundo".
Só que este ser que é e aí está não é como os sentidos o apresentam, isto é, mudável e plural (Jaeger, W. La Teologia de los primeros filosofos Griecos, pg. 105, trad. de JOsé Gaos, Fondo de Cult. Economica).
11 - No meio de nosso entusiasmos por este herói da metafísica, que por primeiro se lançou à busca de uma ontologia - o estudo do ser enquanto ser - muito mais virtual do que explicitamente, aliás, não poderemos esquecer-nos de que estávamos engatinhando em filosofia, nestes tempos pioneiros.
Não pretendemos, pois, afirmar que as investigações de Parmênides tinham como endereço o conceito de ser ou que ele tivesse criado este conceito. Só muito mais tarde se chega a isso.
Ele pesquisa ainda sobre "a natureza" - lembremo-nos do título do poema. O que ele quer saber, com mente clara ao olhar perfurante do "nous", é o que constitui, em última análise, a natureza.
Mas ao contrário da física dos jônios que quiseram explicar as "coisas" por um elemento material - definido ou indefinido - ele achou que talvez não se pudesse saber é de que as coisas eram, mas uma coisa indubitavelmente, se sabia: é que elas eram.
As coisas são, têm realidade efetiva, estão aí, presentes, reais. Isto se sabe: a natureza é. Por isso diz ele, que tudo o que existe é "ser" é "ente", é aquilo que "está sendo", como diz Zubiri = to on.
E assim, embora não dê nem pretende dar-nos o conceito de "ser", dá, afinal de contas, o seu sentido, pois em tudo que diz está subjacente o seu significado.
Só isso teria feito dele, como também de Heráclito, aliás, os verdadeiros fundadores da Filosofia.
12 - Em um dos fragmentos, compara Parmênides o ser a uma esfera: Não se vá julgar, no entanto, que ele pense assim brutalmente do ser que o repute, de fato uma esfera. O que pretende dizer é que o ser "é completo em todo sentido, semelhante à massa de uma esfera, de igual força a partir do centro para todas as direções, pois não pode ser mais forte ou mais débil em um lugar que em outro" (Frag. 8, 42-46).
O que pretende é inculcar que o ser é homogêneo, e está inteiro em cada parte, todo em todo. Expressão plástica daque de Xenófanes: "todo ele vê; todo ele pensa; todo ele sente" (Frag 24).
Onde há ser - ou não lhe falta nada e é todo ser completo, sem mescla de não ser, ou lhe falta tudo: ou é ser ou não-ser; não há meio termo (Frag. 8, 32-33).
13 - Em vista dessas afirmações, Parmênides nega a possibilidade da física - a ciência do movimentos das coisas ou das coisas móveis. E parece que não deveria falar dela. No entanto, fala. Fala para refletir a "opinião dos mortais". E no relato que dele faz repete o que disseram seus antecessores, mais ou menos.
ZENÃO DE ELÉIA
1 - Discípulo predileto de Parmênides. originário de Eléia, herdeiro e continuador das doutrinas do mestre.
Sua contribuição mais preciosa é a descoberta da dialética ou da erística. Não pura e simples descoberta, pois antes já usavam disputar; mas um compacto rigor metódico nas disputas. Polemista nato, sempre foi assim.
2 - Diz Platão: "Realmente, não sabem todos que o Palamedes eleático discutia com tal arte, que aos ouvintes as mesmas coisas lhes pareciam semelhantes e dissemelhantes, una e múltipla, firmes e móveis?" (Fedro, 261 d).
3 - Sua intenção era, de fato, polêmica. Ele mesmo o asseverava, segundo testemunho de Platão: "Sim, tu não entendeste ainda a verdadeira significação de seus escritos... (eles tencionavam servir de ajuda ao discurso de Parmênides, contra aqueles que pretenderam burlar-dele...".
Se havia ridículo em dizer-se que o ser é uno, muito mais dificuldade e ridículos havia em afirmar-se que ele é múltiplo (Parmênides, 128b).
4 - Os argumentos de Zenão chegam a conclusões paradoxais, em face da realidade. Quando com raízes sutis e eruditas se chega a "provar" que não há movimento local, que em verdade ninguém pode sair do lugar, dá mesmo vontade de responder como Diógenes: Levantar-se, dar uma volta em torno do orador e assentar-se de novo.
5 - Isso, porém, seria não entender nada do que o filósofo queria dizer. O que ele tencionava, em realidade era provar que, se admitíssemos a física jônica ou pitagórica ( e seus ouvintes admitiam-na) e a metafísica parmenidea ( e eles não sabiam refutá-la nem tinham outra para colocar-lhe no lugar) então não havia outro jeito senão admitir a absoluta unidade do ser, com todas as consequências.
Zenão não eta um sofista que quisesse fazer cair o queixo de seus auditores simultaneamente divertidos e atordoados, na incapacidade de responder às aporias de uma lógica horripilante e que, no entanto, a gente notava sem saber dizer porque - não era muito "lógica".
Sua intenção não era chatear. Ele partia de pressupostos errôneos que ele, e os outros, admitiam ou eram forçados a admitir. Ora, a partir daí não havia outro remédio senão chegar às mais estapafúrdias conclusões.
6 - As famosas "aporias" (dificuldades - becos sem saída - não-poros): As duas primeiras se baseiam na divisibilidade infinita das coisas e chamam-se os argumentos da dicotomia e o de Aquile e a tartaruga.
a) "o primeiro é da impossibilidade do movimento, pela necessidade de o móvel alcançar o meio antes de alcançar o término" (Arist. Física, VI, 9 - 239b).
Poderíamos expressá-lo graficamente assim:
A f e d C B
O ponto móvel A para atingir o ponto B precisaria chegar primeiro a C, mas para chegar a C, deve chegar a d; mas para chegar a d deverá chegar a e... e assim por diante, indefinidamente, pois as distâncias e os espaços são infinitos. E já que não se pode percorrer o espaço, não me posso mover. Fica simplesmente e absolutamente imóvel. Esta é a realidade, pois o contrário é contraditório, é impensável.
b) O segundo dá ao mesmo argumento uma forma cônica, dramática; Aquiles, o mais veloz dos guerreiros (Aquiles, o de pés ligeiros) não poderá jamais alcançar numa corrida a uma tartaruga, o mais lento dos animais, se lhe der uma frente qualquer que seja, pois...
"é necessário que o perseguidor chegue primeiro ao lugar donde partiu o perseguido, de maneira que o mais lento precederá sempre, por alguma distância. (Fis. VI, 9, 239b).
Suponhamos que Aquiles corre dez mais que a tartaruga e lhe tenha dado um metro de frente. Quando ele tiver percorrido um metro ela terá anda um decímetro; quando centímetro for vencido por ele, terá ela avançado mais um milímetro. E indefinidamente assim, pois os pontos são infinitos e não acabarão nunca; há sempre um infinitésimo de espaço mediando entre os dois, a distância diminui sempre mas não acaba nunca...
Seria, pois, ridículo afirmar que alguém se move se não pode nunca atingir o primeiro espaço por onde saia de onde está... Pois não há primeiro onde há infinito, onde nada começa, nada acaba. Não pode, pois, haver movimento.
7 - Esses argumentos, poderiam ser válidos se se admitisse o infinito realmente e atualmente contido no finito de uma linha ou e um corpo. Os pitagóricos que confundiam realidade física com realidade matemática não deixavam de ficar sem graça diante do dialeto implacável, que zombava assim das ZOMBARIAS que eles quiseram fazer de Parmênides.
Mas Aristóteles e nós outros achamos apenas "curiosos" "seus argumentos", mas lhes tiramos a terribilidade negando-lhes o fundamento: a divisibilidade é infinita matematicamente, não fisicamente.
Zenão não se molestaria muito com isso e procuraria vulnerar-nos por outro lado: mesmo admitindo um limite último à divisão, o movimento é impossível.
a) "O terceiro arrazoado pretende que a flecha que se move está imóvel" (VI, 9, 239 b).
Com efeito, "todas as coisas num instante dado, estão em repouso ou em movimento. E se elas estão em repouso quando ocupam um espaço igual a elas mesmas (pois neste instante estão num lugar) - como, por outra parte, o móvel que vai sendo levado está sempre no instante, (ocupando um espaço igual a ela mesma) - então a flecha em movimento está imóvel" (Fis., VI, 9, 239 b).
A frase de Aristóteles, naquele estilo de rascunho, de apontamento, de aula, não é fácil. Deixa o raciocínio meio obscuro e mesmo duvidoso.
Parece, no entanto, que, tendo Zenão demonstrado atrás o ridículo da divisibilidade do espaço ou das coisas ao infinito, mesmo admitindo em limite nessa divisibilidade, mas mantida a composição do tempo em instantes indivisíveis, em átomos temporais, caímos em contradição com nós mesmos. Pois afinal, se o tempo é composto de átomos ou instantes indivisíveis, o móvel está, aqui e agora, neste instante. Ora, estar num instante não é mover-se, é ficar, é repousar. O movimento se comporia, destarte, de estado de repouso indivisível, seria uma série de "posições" do móvel, cada uma das quais seria a posição única em cada único instante.
Conclusão: O movimento seria repouso. O que está em movimento está continuamente imóvel.
8 - Se agora alguém vier provar que não há uma série de instantes de repouso mas em cada instante o que há é contínuo movimento, então o dialeta sorri e continua esgrima.
Se, mas então o tempo já é indivisível, somos forçados a reabrir o processo da divisão:
b) ¨O quarto arrazoado é o das séries de massas iguais que se movem no estádio a partir de posições opostas, ao longo de uma série de massas iguais: uma, partindo da extremidade do estádio; a outra, partindo do meio, com a mesma velocidade; com o que parece resultar que a metade do tempo é igual seu dobro¨ (Fis. VI, 9 239 b).
Tentemos uma explicação que, aliás, se encontra só parcialmente nos textos dos ¨relatores¨. Aristóteles e Simplício (a figura explicativa é de Alexandre de Afrodísios). mas que os comentadores modernos procuram articullar logicamente¨ (Bournet, R. Mondolfo).
Figuremos um estádio como Alexandre:
__________________________________
| AAAA |
D ª | BBBB_____+ | º E
| + ____________ LLLL |
__________________________________
Os pontos A são imóveis, fixos. Os pontos B se movem em direção a E através dos A imóveis. Ao mesmo tempo, em direção oposta (para D (delta) se movem com igual velocidade, ao longo dos pontos A, a série dos L.
Ora, eis o que sucede: na mesma duração de tempo em que um ponto B atravessa dois pontos L. Ora, cada ponto igual equivale a um átomo - um instante indivisível - de movimento que corresponde a um átomo de tempo. Sucedeu, pois, este paradoxo: um ponto atravessou, numa mesma duração temporal, um tempo e dois tempos. Quer dizer que a metade do tempo é igual ao seu dobro.
Ou ainda: o instante indivisível começa a ter partes - é um e é meio. Mas, se introduzisse no indivisível a divisão, quer dizer que os seres, o tempo, o movimento, o espaço são indefinidamente divisíveis. Recaímos no primeiro argumento; atingimos o fim da curva, estamos no recomeço, do qual não há sair.
9 - Eis aí o que há de novidade em Zenão. Não mais ele é estritamente parmenídeo.
MELISSO DE SAMOS
1 - Embora de Samos, é um dos novos eleatas pela doutrina. Metafísico e polemista, sua luta não é já apenas contra os pitagóricos e jônios, mas especialmente contra Empédocles, a seu pluralismo. Os por tanto tempo considerados fragmentos de Melissos, já hoje são definitivamente recebidos como simples paráfrases de sua doutrina, feitas por Simplício. Burnet julga, porém, que o que inicia a paráfrase é autêntico devido à introdução de Simplício.
... e por ter um tom perfeitamente eleático: ¨Se nada existe, que se pode dizer a respeito disso, como se se tratasse de uma coisa real?¨.
2 - Afirma com muita ênfase a infinitude do ser, de modo claro, o que não deixava de ter ficado confuso nas afirmações de Parmênides. Por isso também rejeita a esfericidade do ser e passa à infinitude pura e simples sem forma alguma.
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